:: Atrair, trair, distrair ::

Dizem que os opostos se atraem. Discordo. Qualquer relacionamento que tencione ser duradouro precisa de muitos atributos, menos de oposição. Existem muitos erros e mitos em relação ao amor; principalmente os hollywoodianos. Esse é um deles. Sim, estou mais para o verso daquela música do grupo Teatro Mágico, que diz: "os opostos se distraem, os dispostos se atraem".

“Mas a lei do magnetismo entre opostos existe na natureza das coisas inanimadas!” – bravejam os opostos que se distraem. De fato, essa lei existe... para as coisas inanimadas! Ser humano não é coisa, muito menos inanimada. Coisas existem, seres vivem. Não caia na falácia naturalista que tenta a todo custo nos atomizar. Não somos só matéria. Não somos apenas pó. Temos uma alma. Não estamos mortos, desfalecidos. Somos seres que pensam, sonham, sentem, vivem. Somos seres criados à imagem e semelhança de Deus.

Também não somos bichos. Não caia na falácia pós-moderna que tenta a todo custo nos animalizar. Há uma tendência de se querer converter o ser humano em gado e de se transformar o amor entre homem e mulher em uma reprodução meramente animal, como se destituído estivesse de valores morais, sentimentais e humanamente divinos.

O mito cinematográfico da lei do magnetismo amoroso é perniciosamente alimentado por outro: a crença de que não existe amor possível onde há identidade de temperamento, unidade de propósito e semelhança no modo de sentir e pensar. Passa-se a falsa ideia de que, num ambiente como esse, o amor se esfriaria, pois tudo fica muito monótono, parado, sem novidade. Pelo contrário, é nesse tipo de relacionamento em que o verdadeiro amor se desenvolve. Os opostos que se distraem morrem de medo de o amor virar só amizade. Por isso, se acostumam a alimentar o amor de brigas e irritações mútuas, como se o desentendimento fosse um combustível essencial para manter a chama do amor sempre acesa.

O problema é que essa chama nutrida pela oposição inflama tanto que perde o controle e transforma o relacionamento a dois num inferno. Aos poucos, sem qualquer possibilidade de comunicação ou compreensão saudável, os opostos vão se matando com palavras e se distanciando cada vez mais. Os opostos se destroem, se perdem, se ferem, se distraem, se traem. Se subtraem, se abstraem, se detraem. Opostos não se entendem, nem se combinam e, perdidos e inseguros, costumam dar início à vã utopia de tentar mudar e moldar o outro pela força – buscando artificialmente encontrar uma unidade da qual, até então, ironicamente fugiam.

Claro, é preciso dizer, oposição não é sinônimo de diferença. Todo relacionamento possui e carece de diversidade, de elementos pontuais assimétricos que convivam e interajam harmonicamente entre si dentro de uma simetria maior. E é bom que seja assim. Contudo, oposição nunca traz unidade ao relacionamento. Opor-se é duelar. Amar é ajustar-se. "O amor consiste em não fazer da diferença, divergência", diria Frei Beto.

Diferenças, num terreno onde exista humildade, sempre nos fazem aprender, crescer e amadurecer. Diversidades, num solo onde haja unidade, permitem seja regada a benção da complementaridade: ser o que o outro não é, onde o outro não é, fazendo o que ele jamais seria capaz, sozinho, de fazer. Dois se tornando um e sonhando um mesmo sonho; um respeitando a individualidade dos dois e sonhando o sonho do outro. Mais fortes, misturados, capazes e preparados do que eram individualmente, antes de serem unidos na simbiose do amor. Aprendamos a garimpar a diversidade na unidade. Aprendamos a não fazer da diferença, divergência – pois quem faz divergência faz oposição, e quem faz oposição não está disposto a se atrair.

Por Fernando Khoury

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