:: Sobre buscar a Deus (um conto) ::

Um homem muito religioso e de muita fé desejava, com todo seu ser, se encontrar com Deus. Ele ia a todos os cultos da igreja. Era bastante envolvido nas atividades eclesiásticas. Ofertava assiduamente. E, sempre que podia, dizia a quem pudesse ouvir que ele sentia no coração um chamado de Deus para ser missionário na África. Mas ainda não era chegada a sua hora. No tempo certo, segundo ele, Deus iria fazer uma reviravolta, mudar todas as coisas e cumprir a promessa do chamado em sua vida.

Todos os dias pela manhã, aquele homem acordava cedo para buscar a Deus. Franzindo seu semblante, fechava fortemente seus olhos e orava com fervor. Seu sincero e caloroso clamor era um só: 

"Deus, eu quero te ver.
Eu quero te tocar.
Eu quero te abraçar.
Eu te busco, eu te procuro.
Eu tenho sede de ti.
Eu tenho fome de ti.
Quero me aquecer em seus braços de amor.
Eu quero te servir.
Onde tu estás?
Revela-te a mim!
Cumpre o seu chamado em mim"

Após terminar a oração, como de costume, aquele homem saía apressadamente para o seu trabalho. O trajeto era sempre o mesmo. Era sempre apenas mais um dia. Um dia comum. Esse dia comum aconteceu hoje. Aconteceu ontem.

Ontem. Segunda-feira, início de semana. Terminado o período de oração, colocando o seu paletó, aquele homem já entrou no elevador de cabeça baixa, só para não ter que dar bom dia e escutar as reclamações do seu vizinho, conhecido entre os moradores por ser o chato e o problemático do prédio. Ao sair do elevador, no hall do prédio, encontrando-se com um velhinho que julgava mentalmente desabilitado, logo se esquivou para não perder seu precioso tempo dando atenção a um desequilibrado. A caminho do trabalho, vendo um pobre que vivia passando fome na rua, até sentiu compaixão em seu interior, mas continuou a comer seu sanduíche e não lhe estendeu a mão. Pensou o homem consigo: "coitado, que Deus tenha misericórdia dessa pessoa e lhe arrume um emprego". Já perto da porta de entrada do seu trabalho, deparando-se com um mendigo seminu que, tremendo de frio, dormia diariamente estirado na calçada, sentiu-se movido em seu coração a agradecer a Deus por ter uma casa, um lugar seguro onde dormir e por ser alvo da provisão divina que nunca faltara em sua vida.

À noite, já em casa, antes de dormir, aquele homem fazia a mesmíssima e calorosa oração. No dia seguinte, religiosamente, o clamor daquele homem se repetia pela manhã, assim como as situações pelas quais ele passava no caminho para o seu trabalho. E assim ocorreu por muitos outros dias, por sucessivos anos, até que aquele homem, já velho, morreu frustrado - sem nunca ter encontrado Deus ou cumprido seu chamado.

Teria Deus deixado de responder a oração daquele homem? Não. Claro que não.
Deus estava no elevador, no hall do prédio, na rua, na calçada. Diariamente.
Deus sempre esteve lá. Mas aquele homem nunca o viu.

Se aquele homem pelo menos tivesse percebido que a África também é aqui.
Se aquele homem pelo menos tivesse entendido o que de fato significa ser chamado por Deus.
Se aquele homem pelo menos tivesse compreendido que, apesar de não serem as obras que salvam, a fé justificadora nunca está só.

Se aquele homem pelo menos tivesse enxergado que Deus estava ansiando por ser consolado no seu vizinho problemático, que chora todo dia internamente sem nunca ouvir uma palavra de esperança.
Que Deus estava esperando ser tocado e abraçado no velhinho desequilibrado e rejeitado, que nunca recebeu um gesto significativo de amor nem mesmo dos seus próprios filhos.
Que Deus estava buscando ser encontrado e saciado na dor de fome que apertava diariamente a barriga do pobre, o qual, de tanto ser ignorado pelo ser humano, preferiria ter vindo ao mundo como um cachorro.
Que Deus estava procurando ser acalentado em meio ao frio sofrido do mendigo seminu, que está à deriva no mar do esquecimento, esperando a morte chegar ou o inverno passar - o que acontecer primeiro.

É triste ver que o mesmo fervor que havia na oração daquele homem não existia em sua vida.
Que o mesmo amor que ele sentia por Deus não reverberava em toda sua beleza e intensidade para o próximo.
Talvez porque aquele homem achasse que com Deus a gente só lida de olhos fechados e na vertical... quando, na verdade, com Deus a gente também se relaciona de olhos abertos e na horizontal. Pois receber, no Evangelho, é dar-se, é doar-se... e para nos darmos e nos doarmos é preciso que estejamos, antes de tudo, de olhos bem abertos.

Pois quem tem sede de Deus simplesmente não consegue deixar o próximo com a garganta seca ou com o coração deserto.
Quem tem fome de Deus não se contenta em deixar o próximo com a barriga vazia ou com o coração solitário.
Quem deseja sentir o calor do amor do Pai não deixa o próximo sozinho passando frio ou com o coração desamparado.
Porque aqueles que realmente buscam ao Deus que se esvaziou para nos preencher sabem que seu chamado é suprir ausências e preencher vazios - quer no corpo, quer na alma -, como Cristo fez.

É triste perceber que aquele homem pode ser eu, que aquele homem pode ser você.
É triste perceber que todos querem amar o próximo, mas ninguém quer ser o próximo a amar.

É verdade: tentar suprir a ausência de todos, além de humanamente impossível, é ingenuidade.
Mas não suprir a ausência de ninguém é humanamente desprezível - uma idolatria à vaidade! 
Senhor, livre-nos de nós mesmos.

Que os nossos dias não passem de forma miserável, como os daquele homem. 
Que aquele homem não seja eu, não seja você.
Que amanhã eu e você possamos ver, tocar, abraçar e servir ao Deus que nós amamos, Jesus Cristo, num dos poucos lugares onde Ele falou que certamente estaria: na carência física e existencial do próximo. Será um dia comum, como todos os outros... mas também o mais especial de todos. Amém.


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"Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;
Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;
Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver.
Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?
E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes."

Mateus 25.34-40

“Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. (...) Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”

1 João 3.16 e 4.20
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