:: A geladeira e a minha fé gelada ::

"Pai, o pão nosso de cada dia nos dai hoje"
Mateus 6.12


O modo como o ser humano se relaciona com os alimentos nunca mais foi o mesmo desde que o australiano James Harrison inventou a geladeira em 1856. Infelizmente, não foi apenas a forma de o homem interagir com o alimento que mudou... a forma como nós entendemos e vivemos a fé em Deus também mudou drasticamente. A fé na provisão, no sustento de Deus e em sua dependência diária nunca mais foram os mesmos. E a culpa é da geladeira! Isso mesmo. É toda dela, e somente dela, a responsabilidade pela frieza da nossa fé nos dias de hoje.

Antes, o ser humano acordava sem ter à sua disposição uma imensa gama de variedades do que comer. Na verdade, ele provavelmente se levantava sem saber se teria e o que teria para comer no dia, e se deitava sem saber qual seria o seu sustento no dia seguinte. A cada amanhecer, ele deveria providenciar meios de encontrar ou produzir comida em quantidade suficiente para alimentar a si e a sua família naquele mesmo dia. Cada dia era um novo dia. Guardar? Nem pensar. Do contrário, o alimento apodreceria. Era preciso contar todo dia com a graça e a provisão de Deus. Assim como o alimento espiritual, o alimento físico era alcançado um dia de cada vez, não podia ser guardado para o dia seguinte. Nesse contexto, faz todo sentido a oração do Pai Nosso, que clama a Deus pelo “pão nosso de cada dia nos dai hoje”.

Por causa da geladeira, o “pão nosso de cada dia nos dai hoje" foi virando, aos poucos, "o meu pão de toda a semana eu já consegui". O que antes não se podia guardar e era utilizado para sustento diário foi, paulatinamente, virando estoque e dispensa para necessidade futura. A graça de Deus, com que se contava todo dia, foi trocada por idas semanais aos supermercados abarrotados de alimentos de todo tipo. Trocamos o clamor do “pão nosso de cada dia dá-nos hoje” pelo simples abrir e fechar de uma porta de geladeira.

Jesus nos instruiu: "não vos preocupeis com o que haveis de comer ou vestir, pois se Deus cuida das flores e dos pássaros, quanto mais de vocês". Porém, para quem tem a geladeira cheia de comida e o armário lotado de roupa, é muito fácil deixar passar despercebido o verdadeiro senso de gratidão e de dependência diária de Deus.

A fartura e a provisão são bênçãos e presentes de Deus, é verdade. Mas, se usadas e encaradas da forma errada, podem se transformar em verdadeira maldição e armadilha para a nossa fé.

Ao sermos agraciados com a dádiva de poder ir toda semana a um supermercado e voltar com o carrinho cheio de compras para abastecer nossas geladeiras, nós não somos só abençoados, mas também tentados a esquecer dAquele que nos concedeu tamanha graça, e acabamos desaprendendo, sutilmente, a viver e a pedir o pão nosso de cada dia.

Nos esquecemos de pedir a Deus pelo pão. Nos esquecemos de pedir e agradecer pela sua provisão dia após dia. Porque, afinal de contas, quando a minha recheada geladeira se esvaziar, basta eu ir ao mercado novamente e voltar a abastecer aquele aparelho imenso que desabastece a minha fé e a torna cada vez mais gélida e insensível.

O pão que era de cada dia passa a ser da semana inteira. O pão que era nosso vira o meu pão. E o que sobra... nós guardamos em nossas geladeiras. Assim, numa só tacada, erramos duas vezes: deixamos de contar com a provisão diária de Deus e nos “esquecemos” de ajudar o próximo, ao optar por armazenar para nosso sustento futuro o alimento que poderia encher o prato vazio de uma pessoa que passa fome agora.

O trabalhador dá mais valor ao seu salário quando recebe sua remuneração após um longo dia de trabalho, porque pode ver no final daquele mesmo dia o fruto do seu suor materializado na possibilidade de se sustentar por mais um dia. Por outro lado, receber uma bolada, ao final do mês, tem efeito contrário: amesquinha nosso senso de gratidão e nos faz desmerecer o patrão, o emprego e o salário recebido. Faz-nos desprezar a dádiva do presente e nos preocupar em excesso com o nosso próprio futuro. Eis a nossa incoerência e contradição: temos de sobra, para dar e vender. Mas não damos. Quando muito, vendemos. E, mesmo assim, nos preocupamos cada vez mais com o nosso próprio amanhã!

Quem não tem comida no prato não tem tempo para se preocupar com o amanhã. Quem está com fome agora não tem tempo para se preocupar com o que terá pra comer no minuto seguinte. Quem não tem roupa suficiente não tem tempo para se preocupar com o frio da próxima noite. Tudo que essa pessoa quer, e precisa, é se virar só por mais aquele dia. Ela é obrigada a contar com a graça de Deus dia após dia. Ela é obrigada a contar com a provisão de Deus minuto a minuto. A situação do presente já é escassa demais para que essa pessoa se dê ao luxo de ter preocupações com o dia de amanhã. Para esses, basta a cada dia o seu próprio mal.

Querer sempre mais. Esse é o mal da nossa geração. Estamos sempre querendo algo novo, que ainda não temos, e insatisfeitos com o que antes sonhávamos ter – mas agora já temos. Tendemos a valorizar o que ainda não nos foi dado e, assim, menosprezamos o que já recebemos. E, ao priorizar o que ainda não temos, canalizamos cada vez mais recursos para o “nosso eu” e cada vez menos para o “próximo cada vez mais distante”.

Estamos mais dispostos a “inchar” do que propriamente a repartir e a doar. E ainda temos a coragem de perguntar o porquê de o mundo estar assim. Alguns, ainda pior, se lembram de Deus nessa hora apenas para culpá-lo... mas a culpa é nossa.  "Deus irá multiplicar o que eu e você estivermos dispostos a repartir" (Ariovaldo Ramos).

Não sou contra sonhos. Não sou contra riqueza, metas e desejo de progredir. Também não sou a favor de voto de pobreza, de estagnação e de acomodação. Este texto é apenas um alerta para uma geração insaciável que quer sempre mais e, nesse ímpeto suicida, se esquece de Deus e se esquece do próximo. É apenas um convite a essa geração para resgatar em seu coração a essência da dependência diária de Deus, o contentamento com o que Ele nos dá e o verdadeiro sentido do “pão nosso de cada dia”.

Pai, dá-nos novamente o “pão nosso de cada dia”. Que olhemos para nossas geladeiras e possamos ver a Sua mão e a Sua provisão. E que possamos abrir suas portas não apenas para encher nossas próprias barrigas. Amém.

Por Fernando Khoury
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1 Response
  1. poxa, gostei deste post !

    Parabéns !

    bjinhus


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